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  • domingo, 8 de maio de 2011

    "Um João e sua Maria (parte I)", por Hhp


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    Além das artes pessoais e da amplitude do silêncio, o único gozo de José, naquela insone noite de verão, permanecia entrelaçado no sorriso da mulher. Recostado em sua cadeira de vime, no alpendre da casa em que compunha seus rocks rurais, o jovem degustava, agraciado por uma indolente brisa do vento norte, os segredos de Ovídio. Em sua famigerada vontade de encontrar um amor, aportou grandiosa esperança na sagacidade do imprevisto. Lembrou, no repente de um suspiro, da última vez em que os olhos da ex-namorada lhe convidaram ao pecado. Largou livro e lápis, levantou-se e foi até o jacarandá, alguns metros adiante do lugar onde estava. Dali, entre um gole de rum e outro, fantasiou desesperadamente o nó da solidão, desfeito.  Entreviu, então, no Cinturão de Órion e nas benditas Três Marias, a vontade pelo seu brado de luta a coração (des)armado. Decidiu, naquele arrastado blues que tocava em seu violão, armar-se de suas principais virtudes e sair à procura de sua Afrodite. Esperou findar a música, acendeu um cigarro e tagarelou com Ursa Maior: queria um presente antecipado para ela, queria gracejá-la com o sumo de seus desejos e de sua boa aventurança, de sua errância e essência nua. Recorreu, e não poderia ser diferente, aos versos e às tintas. Rascunhou alguns desajeitados traços em um guardanapo e, sujo de sangue o dedo, pelos insistentes acordes pestanejados, decidiu que arderia na fronte de seu desenho, como que em almejo de graça e poder, a bela figura de uma flor.

    quarta-feira, 30 de março de 2011

    "Sonetos eternos", por Hhp


    "Set me free", fotografia e montagem de mrrezania

    Promanam dragões desse punho controverso, 
    em sede algoz pela dúvida, pelas nebulosas
    da vontade de querer, de representar, 
    de historiar: arte, música, palavras e desejo...
    Enlevos sublimes que atravessam nossos ossos,
    que sopram cacos e fiapos das respostas vindouras,
    dos porvires, dizeres e prazeres de todos nossos 'eus',
    póstumos, presentes e futuros.
    Fractais do tempo e das intempéries,
    a singularidade e a beleza, geração após geração,
    sempre rangeram, suspiraram, atentaram, condenaram,
    suplicaram e deram de bandeja, aos pares de amor e guerra, 
    a fábula de vitral intimidade com o caos,
    dos modismos, das circunstâncias, dos aforismas.
    Poucos sabem, no entanto, que a grandeza do homem
    não se apraz, necessariamente, pela maneira como conquista 
    a sobrevivência diante da mixórdia do apropriável,
    da materialidade, do consumo e da instantaneidade!
    Gigante é o indivíduo que, a par da poderosa galvanização
    dos museus das eternas novidades, puídas e infelizes,
    constrói e amplia horizontes pela maneira como se livra
    do auto-medo e, com os dragões à solta,
    consegue gozar a completude de um sorriso, abraço, beijo
    e amasso, de mãos dadas com a simplicidade da vida,
    mesmo que, ao derredor de todas as batalhas para alcançá-la,
    infiéis e desertores insistam com os proclamos do
    pessimismo, da impossibilidade e das tão covardes
    resignações que o seu despreparo à finitude provoca.
    Enquanto, para estes, apenas a fotografia embriagar,
    displicente perdoada e viável, aos outros será dado
    "versificar" os ângulos e as vertigens da alma.
     
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