Fotografia de Diogo Ramos Moreira
All rights reserved to the author
Ainda que nada seja dito, e as expectativas permaneçam, para todos consortes do ébrio extrassensorial, hediondo flagrante de repentino e perene abalo, haverá inequívoca distância entre o muito e o demais. No amor, entretanto, seja frisado, há um ínfimo vazio entre eles, preenchido de desejo, vontade e prazer. Muitas vezes não se distingue o certo do errado e vice-versa. Isto porque, uma vez enamorados, os amantes gozam a vida pela temporalidade. É dito, ao revés, que ares, olhares e momentos são oportunos, se vêm cedo ou tarde. A certeza do que se faz é tão relativa, no sentido da permanência. O prelo da relação se dá por meio da cordialidade, dos afagos, da intimidade, da amizade. A estrutura base, o que determinará a perpetuidade dos casais, assim, emana do que deste entrechoque restará como convergência. Muitas vezes batalham inamovíveis conceitos e virtudes opostas, pontos de vista tiranos, e a própria história de cada um. Por isto, no amor, não se deve falar em culpa. À inocência de um ciúme perdoável não se deve aproximar a frieza de uma arbitrariedade. Os medos e os nós do passado, que talvez nunca sejam desfeitos, sintomatizam sinais de luta, de vontade de conquistar um bem-estar pleno. Logo, quem ama busca doar-se ao outro na medida do máximo esforço para ressignificar estas glórias e angústias. O próprio autoesforço neste sentido há de brindar ambos com muita harmonia e sempre mais coesão. Os fatos e atos, agora vividos em unimultiplicidade, devem possuir tamanha transparência e nudez que conduzam ao respeito e à aceitação do tempo do outro. Vige, desta feita, entre aqueles que se dispõem a amar, a regra do indulto à felicidade: temos de nos permitir o amor, em primeiro lugar. Tarefa esta bastante delicada, encontrar a cara-metade requer paciência, jogo de cintura, investigação, apuro e fibra moral para lidar com o inesperado, com a carga humana de falibilidade. Por isto, se ainda não aprendi a dissimular o que sinto, bem sabes tu que aqueles sorrisos meus se coloriram de tua morena voz, do teu olhar e de tua imensa sede por encontrar-te no sutil enlevo de um tempo construído a dois. Certo ou errado, não importa, que a ti seja deixado sem assomo de dúvida não haver "tempo perdido ou tempo a economizar, pois o tempo todo é vestido de tempo e tempo de amar".