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terça-feira, 17 de maio de 2011

As fases do amor


 
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A fase de iluminaçãoA chamada “eleição” do objeto amoroso tem sido exaustivamente estudada pelos psicólogos modernos, e também pelos poetas e filósofos, que nos têm dado descrições e interpretações às vêzes mais interessantes que os primeiros. Especialmente os psicanalistas se têm deixado levar, com freqüência, por considerações precipitadas, teóricas e excessivamente naturalistas. Por outro lado, os poetas e filósofos têm-no interpretado, em regra geral, de modo mais ingênuo. Referimo-nos especialmente a um grande poeta e a um grande filósofo espanhóis: Pedro Salinas e Joaquim Xirau. O primeiro, no poema “Razão de Amor”, e o segundo, no livro Amor e Mundo, legaram-nos páginas de beleza e profundida não superadas na descrição das primeiras fases do “existir” amoroso. 
Devemos de antemão salientar que o Amor não é algo que nos “chega”, nos “invade” ou “cai” sôbre nós, e sim um especial modo de ser que sobrevém em nosso íntimo, apoiado e estimulado por certas condições e fatôres situativos. Muito mais, pois, que o valor provocante ou incitante do objeto amado, deve-se levar em consideração o valor exuberante e expansivo do “sujeito amante”; mas como a êste falta distância indispensável para poder analisar-se objetivamente, projeta no exterior o motivo de suas vivências (exatamente como projeta no exterior as imagens de sua retina) e atribui estas a determinada pessoa, que assim passa a constituir o suposto foco desencadeante do processo amoroso.

Que o objeto em si pouco vale, e a necessidade, as circunstâncias e o sujeito é que valem muito, mostra-nos diàriamente a experiência das alcoviteiras que entretêm suas horas de tédio e consolam sua nostalgia, planejando e tecendo as rêdes com que prenderão, em seu campo de operações os jovens e adultos que ainda não casaram. Tais espertas, reunidas em conclaves, decidem que “seria lindo” casar X com Z e M com S. Conseqüentemente, desenvolvem sua estratégia, seus enredos, reuniões e ocasiões, esperando que “êle” ou “ela” atravessem o quarto de hora propício para fixar-se, reciprocamente, entre si. E nove vêzes em dez o conseguem; os noivos assim prefixados ignoram, muito tempo ou para sempre, o papel essencial que teve seu amor êsse concílio de menopáusicas que, clandestinamente, monopoliza a distribuição dos idílios “puros”, nos ambientes enquistados de sua jurisdição casamenteira.

Mas, falemos do que importa: como se vive a primeira fase do processo amoroso, ou seja, o período no qual emerge e se destaca, entre tôdas, a imagem que reflete nosso incipiente Amor? Êste, qual energia luminosa e radiante, condensa-se na contemplação e adoração de outro ser, semelhante, correspondente ou aperfeiçoado, e nêle ilumina seus aspectos positivos. Eis como descreve Xirau êsse ato (Amor e Mundo, págs. 124 e 125):

“Em presença do Amor a pessoa ou coisa amada sofre ante o olhar do amante uma verdadeira transfiguração. O olhar amoroso vê nas pessoas e nas coisas qualidades e valôres que permanecem ocultos a um olhar indiferente ou rancoroso. Todo ser possui, ao lado das cararcterísticas superficiais que se oferecerem a quem quer que as olhe, uma infinidade de propriedades, boas e más, que permanecem em seu íntimo, e ainda muitas outras que, embora ignoradas, é possível que algum dia venham a se manifestar e mudem totalmente sua fisionomia interior ou exterior. Há portanto, em todo ser, algo atual e patente e algo virtual e latente. E entre tôdas as propriedades e valôres que possui uma pessoa ou uma coisa, superficiais ou profundas, virtuais ou atuais, os há bons e maus, melhores e piors, detestáveis e excelentes.

“Ora, o olhar apaixonado percebe no ser amado o conjunto de tôdas as qualidades e valôres que o integram e destaca, em primeiro lugar, aquêles que entre todos possuem qualidade ou um valor superior. A partir daí, tende a incrementá-los e a sublimá-los, a pôr tudo o mais na sua dependência, e a levar, se é necessário, com esfôrço, sua imperfeição à plenitude.

“O Amor é, portanto, claridade e luz. Ilumina no ser amado suas recônditas perfeições e percebe em conjunto o volume de seus valôres atuais e virtuais.”

O importante, pois, para nós, é destacar que as qualidades de um ser não são as que determinam nosso enamoramento, e sim que é êsse que as destaca e descobre. Ou, dizendo-se de maneira mais vulgar: não vemos as perfeições nem as admiramos a priori mas a posteriori de sua iluminação pelo feixe de luz amorosa que brotou de nosso núcleo pessoal, e pôs “em foco”o ser que julgamos o “incendeu” e que, na realidade, o “recebe”.

Pretende-se assim negar tôda influência externa, todo valor de “luz própria” aos objetos de nosso amor? Evidentemente, não. Pretende-se, entretanto, simplesmente afirmar que sua luz requer a nossa para ser apreciada com a refulgência conveniente do Amor. Nada há que não tenha algum clarão próprio, mas nenhum foco luminoso é capaz de vencer a obscuridade de um cego.

A vivência da “iluminação” pode dar-se bruscamente – como um relâmpago – e a isso se chama, em têrmos vulgares, a “centelha” (em castelhano: “el flechazo”), ou então de modo suave e progressivo, como um lento amanhecer. No primeiro caso, o provável é que o Amor se nutra principalmente de elementos procedentes de sua raiz orgância genital e tenha mais apetite fisiológico que processo passional, propriamente dito. Sente-se, então, como um verdadeiro choque, seguido de excitação sexual; ainda sem se saber que é e nem como é, basta-nos sua aparência, que exerce uma espé ie de aspiração ou atração magnética.

Outro é o caso da iluminação, quando se efetua sob a influência serena de um amor nutrido por desejos pessoais mais amplos: então, a imagem amada se destaca lenta, progressiva, porém seguramente, entre as demais, apresentando zonas e aspectos que provocam a admiração crescente e o gôzo contemplativo, capaz de chegar a um êxtase no qual todo dinamismo psíquico se consome em puro enlêvo ou estado sentimental de inefável prazer, provocado pela visão e a penetração ou fusão imaginativa no halo luminoso dessa imagem. Tanto num como noutro caso, entretanto, o Amor é, como habitualmente se afirma, cego, mas simplesmente astigmático: destaca e ressalta aquelas zonas pessoais que maior gôzo contemplativo e admirativo proporcionam ao (ou à) amante, mas não deixa de perceber também as outras, inclusive se estas são defeituosas ou repelentes: mas – como diz Xirau – os valôres pessoais negativos são subordinados e submetidos aos mais elevados, aos que servem de pedestal para um contraste mais favorável. “O Amor [...] acentua as facêtas positivas e valiosas das coisas, projeta sua luz sôbre aspectos deficientes ou defeituosos, absorve-os e ainda os suprime pela única razão de colocá-los a serviço daquelas.”

Dessa forma, intervindo a denominada “seleção calitrópica”, até as imperfeições mais evidentes adquirem um “encanto” especial. O nariz chato parece gracioso; a bôca, grande e grosseira, torna-se “sensual”; as mãos, gordas e pequenas, são de “boneca”, etc.c, ou, se se trata de um homem, os modos grosseiros tornam-no “mais viril”; suas cãs dão-lhe “nobreza e sabedoria”, etc. A quem se convencer do influxo que a tendência amorosa exerce sôbre a percepção iluminada de seu objeto, bastará contemplar as fotografias dos pequeninos monstros que às vêzes são apresentados aos concursos de beleza infantil pelas mães orgulhosas de seus rebentos.


A fase de ilusionismo e dúvida – Sem solução de continuidade, o processo amoroso passa da fase anterior a esta outra, na qual a imaginação tece uma nuvem de fantasias concernentes ao futuro e à possível comunhão (espiritual e carnal) com o ser amado; fantasias, entretanto, que se vêem periòdicamente contrastadas e detidas pela dúvida ou temor de que a realidade esteja demasiado longe de suas promessas. Não é verdade que o “sonhar não custa nada”; custa, em primeir lugar, afastar-se da realidade e, em seguida, retornar a ela. Assim, o ser enamorado começar a ser torturado pelas perspectivas dos prazeres e dos fracassos antecipados. A ilusão se refere não sòmente à exaltação dos valôres integrantes do ser amado, mas também à concepção de uma vida venturosa em tôrno dêle e em comum com êle. Simultâneamente, entretanto, surge o temor de que o sonhador careça de méritos para transformra em realidade essa ilusória ventura. O Mêdo surge na consciência amorosa sob a forma dubitativa, logo que esta registra seu estado de “necessidade” de correspondência ou, pelo menos, de “presença” contemplativa do ser amado. Eis aqui como Salinas expressa, poèticamente, essa inquietação:

“No, no puedo crer
que seas para mí,
si te acercas, y llegas
y me dices: ‘Te quiero.’
Amar tú? Tú, belleza
que vives por encima,
como estrella o abril,
del gran sino de amar,
em la gran altitud,
donde no se contesta?
Me sonríe a mí el sol,
o la noche, o la ola?
Rueda para mí el mundo
Jugándose estaciones,
Naranjas, hojas secas?
No sonríen, no ruedan
para mí, para otros.
Bellezas suficientes,
Reclusas, nada quieren,
en su altura, implacables.”

Essa incerteza do gôzo anelado é já um gérmen do tóxico que o Amor envenena suas vítimas: o ciúme.

Pode-se naturalmente objetar que a dúvida não pertence ao Amor em si,e sim quando se pensa no Amor para si, mas o certo é que não há Amor completo que não tenha êsse duplo movimento de fluxo e refluxo, de efusão e infusão de uma fase de expansão, cessão, transbordamento e entrega, e uma contrafase de absorção, introjeção, captação e posse.

O amante propende tanto a amar como a ser amado, e se do seu amor não duvida, é natural que duvide do sentimento que terá inspirado, pelo menos no início de sua história amorosa.

O ilusionismo, contudo, vence o ceticismo, nos casos normais, e lança o ser enamorado na fase imediata, ou seja:


A fase da insinuação e exploração – Neste período, manifesta-se, melhor talvez que em nenhum outro, a natureza dialética de rivalidade e emulação que rege tôdas as relações humanas. As experiências dos modernos psicólogos têm evidenciado que tanto o homem como a mulher conservam o costume infantil de exibir suas graças e valôres ante qualquer semelhante com quem entrem em relação (profissional, amistosa ou amorosa, pouco importa), no intento de serem devidamente prestigiados e poderem, assim, triunfar (ou pelo menos não fracassar) no trato interpessoal iniciado. Esta conduta não se altera na dinâmica amorosa; ao contrário, exagera-se durante a fase de recíproca “conquista” de que no momento tratamos. Simultâneamente, realiza-se a exibição das próprias qualidades, a exploração das já pressentidas na criatura eleita e a insinuação ou manifestação do afeto que por ela se sente. Às vêzes, esta manifestação se dá de modo solene e espetacular, constituindo a clássica declaração (desejada e temida pelo homem e sempre desejada, ainda que aparentemente temida, pela mulher). Inclusive, parece impor-se uma certa liturgia e uma favorável mise en scène para tal passo, quando se tem em vista uma união permanente e completa: tornam-se necessárias certas condições de solidão, silêncio, semi-obscuridade, paisagem ao luar, música... ou, se se trata de um chamado “amor de aventura”, uma prévia libação e dança... Tratando-se de namorados tímidos, não é raro que susceda o contrário: a declaração dá-se às pressas, ao despedir-se, em meio do barulho e sem tempo para um diálogo franco e tranqüilo... ou então, é confiada a uma meditada epístola, envôlta em romântico palavreado...

Mas o certo é que essa solenidade vai desaparecendo, sem dúvida porque as novas gerações são mais realistas e estão mais a par da “técnica” da aproximação. Graças a isso, passam do flirt ao petting, ou do liking ao loving sem atravessar êsse período formal da declaração, na qual, simbòlicamente, se “abre o coração”. Em troca, tanto êles como elas possuem uma rara habilidade em fazer insinuações mudas (com o olhar, o sorriso, a mão...) ao longo das conversações mais ou menos triviais. Dessa forma, quando chega o momento da eclosão passional, cada qual está suficientemente seguro dos sentimentos do outro e pode reduzir-se a um mínimo sua formulação verbal. A êste respeito é oportuno relembrar a piada: no século passado, quando uma donzela dizia “não”, significava “talvez”; se dizia “vou pensar”, significava “sim”, e se dizia logo “sim”, não era mais donzela.

Mas o fato de ter a declaração amorosa perdido o encanto e espetacularidade – exceto para alguns impenitentes, românticos e anacrônicos dom-joões – não invalida a existência da fase que descrevemos; ao contrário: complica-a e prolonga-a, de certo modo, pois o que poderia ser uma clara conversação se transforma em uma série de gestos e condutas de duplo sentido, com as quais se quer ganhar tudo sem perder nada, deixando caminho aberto para novos ataques ou fáceis retiradas.

Naturalmente, sob êsse aspecto, é infinita a variedade dos comportamentos humanos, sendo que uma mesma pessoa é capaz de conduzer-se de modo completamente diverso em situações análogas, desta natureza. Apesar disso, porém, há alguns aspectos constantes e comuns na fase que estamos analisando.

O primeiro dêles é a exagerada atenção que se presta à “aparência”, não só física como intelectual e moral, de si próprio e do ser amado.

O segundo é a curiosidade, difícil de conter, para descobrir nêle novas facêtas e aspectos que aumentam o grau de conhecimento e de consentimento íntimo a desfrutar, inclusive, antes da intercomunicação dos pensamentos amorosos.

Com avidez semelhante à do arqueólogo que explora uma nova gruta pré-histórica, ou à do astrônomo que descobre um nôvo cometa, o amante quer “ver e saber tudo” acêrca do ser que é objeto de seu Amor. E isso não sòmente por simples curiosidade cognoscitiva, mas ainda por gôzo de maior deleite e pelo afã de compartilhar mais íntimas emoções. Assim, Pedro Salinas escreve:

“Perdóname por ir así buscándote
tan torpemente, dentro
de tí.
Perdóname el dolor, alguna vez.
Es que quiero sacar
de tí tu mejor tú.
Esse que no te viste u que yo veo,
Nadador por tu fondo, preciosísimo.
Y cogerlo
y tenerlo yo em alto como tiene
el árbol la luz última
que le ha encontrado al sol...”

O terceiro aspecto característico desta fase é a turvação geral em que vive a pessoa, quando tem que reagir fora de sua constelação amorosa. Como se costuma dizer, “está longe”, ou seja, ausente, abstrata, absorta. E isso sucede não por empobrecimento mental (como afirma Ortega e Gasset), e sim porque tôda sua energia de pensamento, sentimento e ação se acha concentrada em tôrno dêsse foco dominante que é a imagem amada. Compreende-se que seja êste o momento em que a alteração amorosa alcança o máximo, pois é justamente o de maior risco e emoção para o desenvolvimento do duplo processo (perceptivo-contemplativo e reacional-possessivo). Mais tarde, quando se haja fixado a fórmula da correspondência amorosa, sobressairá o aspecto puramente afetivo, de satisfação ou de tormento, mas não será necessário dedicar o esfôrço intelectual permanente à resolução das incógnitas que no momento se apresentam. Os mais leigos não ignoram que, ante qualquer situação nova, os momentos de maior tensão são aquêles em que ensaiamos diversos modos de adaptar-nos a ela, sem ter ainda certeza de qual será o êxito alcançado.


A fase de correspondência e a vivência do “eco” – Até aqui, o indivíduo tinha apenas uma certeza: amava. Mas se o processo amoroso segue um curso normal, chega o momento em que, como resultado das insinuações realizadas na fase anterior, pode afirmar e viver outra realidade; é (ou será) amado! Tratando-se de pessoas que procedem de acôrdo com os moldes ad usum na sociedade latina, pode-se dizer que, em regral geral, êste momento é vivido anteriormente pela mulher. Ela, de fato, não deixa transparecer ao homem sua correspondência senão quando está segura da sinceridade e dos sentimentos dêste. Se de outro modo se comporta, assumindo o papel ativo, provocante, de “mulher fatal”, inverte a sucessão habitual dos acontecimentos e corre o risco de viver meramente um amor físico ou genital, de violento desequilíbrio e escasso valor. É, pois, comum que a mulher viva o momento do “eco” quando ouve a declaração ou percebe a insinuação mais evidente. O homem, ao contrário, tem que esperar o “sim”, formulado ou demonstrado (quer dizer: falado ou insinuado) e, às vêzes, passa meses e anos à espera dêste instante. Por isso, costuma ser mais espetacular e violenta a vivência do “eco” ou galã do que na dama.

Que acontece nesse instante e na fase que dêle pende? Não há alegria nem satisfação capaz de comparar-se, em magnitude e qualidade, com o que se sente em tais momentos. Não há palavras nem metáforas capazes de descrever esse euforia, êsse entrechoque de doce bem-estar e de arrebatamento passional, de prazer e de enlêvo, de plenitude e de êxtase, que caracteriza a certeza da correspondência, isto é, a descoberta do “eco” amante. A parte dêsse instante, dois formam um; há uma interpenetração dos núcleos pessoais e constitui-se uma superpessoa comum aos dois corpos, que talvez levem anos a unir-se ou talvez não se unam nunca.  Mas o que importa e dá transcendência a êsse momento é o fato de acompanhar-se de um desdobramento do âmbito individual, ou seja, de sentir-se um súbito crescimento do mundo subjetivo ou intrapsíquico. Ao confessarem-se reciprocamente seu amor, dois amantes se fecundam mentalmente e se entrelaçam de um modo muito mais íntimo e duradouro do que o farão seus corpos.

Esse vivência do “eco” e êsse existir em correspondência, também foram maravilhosamente descritos pelo poeta Pedro Salinas, nos seguintes versos:

“Qué alegría, vivir
sintiéndose vivido.
Rendirse
a la gran certidumbre, oscuramente,
de que otro ser, fuera de mí muy lejos,
me está viviendo.
Que cuando los espejos, los espías
- azogues, almas cortas -, aseguran
que estoy aquí, yo, inmóvil
con los ojos cerrados y los labios
negándome al amor
de la luz, de la flor y de los nombres,
la verdad tranvisible es que camino
sin mis pasos, con otros,
allá lejos, y allí
estou besando flores, luces, hablo.
Que hay otro ser per el que miro el mundo
porque me está queriendo con sus ojos.
Que hay otra voz con la que digo cosas
no sospechadas por mi gran silencio;
y es que también me quiere com su voz...”

(“Razón de Amor”, em Poesía Junta, pág. 167, Ed. Losada)

Pode-se afirmar que não seja capaz – enamorado – de sentir êsse constante ressoar do outro e no outro ser, de seus temores e anseios, suas percepções e propósitos, seus pensamentos e atos, poderá ainda viver outros aspectos da epopéia amorosa, mas terá perdido o melhor e mais profundamente humano da mesma. É através dêle que, em plena correspondência (que significa co-responder, ou seja, responder conjuntamente), o Amor passa à fase terminal de sua progressiva cristalização, ou seja:


A fase de fusão e simbiose – Eis aqui agora, para irmanar uma vez mais a Poesia e a Filosofia, como descreve Joaquim Xirau esta fase de fusão recíproca (Amor e Mundo, págs. 139 e segs.): “Na união amorosa, sem deixar de ser quem sou, eu me situo no próximo , converto-me de alguma forma nêle, percebo, sinto e compartilho quanto êle sente e vive, situo-me em seu íntimo e se revela ante mim a totalidade de sua pessoa... Pôsto assim em seu lugar, a totalidade do mundo se me apresenta dentro de seu ponto de vista, e entendo, compreendo e sinto como minhas a totalidade de suas ações e reações, o sentido completo de sua sensibilidade e sua conduta. O que parece incompreensível e absurdo, olhando de fora, mostra-se inteligível e coerente à luz do olhar amoroso... Todo homem leva em seu seio um mundo. O olhar amoroso penetra nêle e o ilumina. O que aparecia como um simples exemplar de uma espécie se converte de pronto em uma pessoa. Nada nela é banal. Um leve sorriso pode revelar mais que a conduta de uma vida inteira. O íntimo contacto pessoal multiplica em cada um dos sêres que se amam a infinita riqueza do mundo que para êles é. Já não é só um mundos. São dois mundos em um. O mundo inteiro se enriquece e adquire uma dimensão de profundidade. Dois mundo se tornam um, e iluminam por sua recíproca ação os recantos mais recônditos de sua intimidade pessoal...”

Entretanto, nessa fusão e na simbiose resultante, não há, embora pudesse parecê-lo, mecha nem confusão das essências pessoais. Cada um dos elementos do par amante conserva e realça seus próprios valôres; transfigura-se e adquire seu máximo esplendor quando vive sob o manto do Gigante Róseo. Porque essa projeção e transcendência que adquire o seu enamorado, longe de diminuí-lo, robustece-o e amplia-o, já que essa fusão com o amado é flutuante (in-fusão e e-fusão) e o faz vibrar em zonas as quais nunca atingiria por seu próprio  esfôrço. Se é certa que a “união faz a força”, aqui é isto é mais certo que nunca, porque a união é a máxima possível e imaginável.

A pessoa amante adquire, pois, nesse coexistir simbiótico, nessa vida em comunhão com a pessoa amada, uma dimensão e um halo inexistentes e insuspeitados. “Sinto-me transfigurado... eu mesmo não me reconheço... vivo um sonho do qual não quero despertar e, ao mesmo tempo, vejo a realidade com olhos e podêres que nunca tive...” (carta íntima de um adolescente que viveu seu primeiro e grande amor). Daqui por diante, nada será capaz de opor-se à conjunção dos dois amantes. Mais fácil será romper-se o núcleo atômico do que desfazer-se uma simbiose amorosa, pois quando chega a produzir-se, oferece o paradoxal efeito de aumentar com os obstáculos e resistências que surjam em seu caminho.

Bastaria êsse fato, se outros não houvesse, para demonstrar que a vida amorosa não pode ser explicada pelos míopes ângulos da física ou da Fisiologia, como também não pode ser totalmente compreendida sem o seu auxílio. Inclusive a conjuntos dos três outros gigantes – o Mêdo, a Ira e o Dever, - é impotente para deter ou desvanecer a história de um amor que alcançou êste nível de desenvolvimento. Neste caso, os amantes lutam, enquanto viverem, sós, contra tudo e contra todos, renunciando a quantos bens, gozos e prazeres possam ter, com exceção, exclusivamente, dessa fé amorosa, dessa comunhão íntima com a outra parte de si mesmos com o ser que completa a uniade e convive o jugo amoroso (pelo que se chama “cônjuge”).

Que o ser individual, por si mesmo, não seria portador de tais energias se não fôsse porque alberga e põe em jògo, em tais circunstâncias, as de sua espécie, é um fato que os biólogos postulam e demonstram com rigor experimental: diversos investigadores intercalaram obstáculos, de intensidade e dano crescentes, no caminho a ser percorrido por machos e fêmeas de diversas espécies animais (desde os batráquios aos primatas) e compravaram como os dois têrmos do vital par marchavam inapelàvelmente para sua fusão, insesíveis à dor e à fadiga, até que conseguiam juntar-se ou cair exaustos e desfalecidos. Não há dúvida que essa magna fôrça de recíproca atração tem uma base citoquímica, imensa e eterna, pois nela reside o mistério da persistência da vida; mas no momento o que nos interessa é encará-la, sublimada e exaltada, em suas mais nobres e excelsas manifestações. Porque é nelas é através delas que o Homem se eleva sôbre o planno instintivo e se transcende na criação de formas originais e de realidades psíquicas inefáveis.

A simbiose – vidas unidas – do por amoroso produz em seus dois elementos uma transformação não só de visão e atitude como de projetos e atos. Já não têm valor os antigos moldes da vida individual; de tal forma se consumou a conjunção física e a coabitação (que, na realidade, supõe simplesmente viver compoartilhando a mesma habitação, quer dizer, sob o mesmo teto), que mesmo que não cheguem a atingir essa felicidade que supõe a existência do lar, o certo é que agora “êle” e “ela” estão esposados. Não é necessário para isso um contrato ou uma bênção: basta o sincero e firme propósito de compartilhar tudo quanto de bom e mau ofereça o futuro, ajudando-se mùtuamente e colaborando na criação dos valôres (biológicos ou naturais e culturais ou espirituais) que cada qual seja capaz de engendrar. É assim que decorre a fase que poderíamos denominar social do Amor.  


A fase de elevação e criação – Nesta fase, a raiz érgica, antes descrita, expande-se proficuamente. Sua obra dependerá, como é natural, não só das possibilidades pessoais como da situação vital em que estas vão conviver. Mas algo há indiscutível: o Amor, que atingiu êsse momento de seu “devenir”, cresce agora, não já em extensão ou em profundidade, mas em amadurecimento germinal. Dia a dia, surgem novas provas de inspiração que dêle procedem: a não é a exaltação (artística ou ética) da figura amada, nem tampouco a obsessão ou o frenesi de sua pura contemplação ou posse, o que inquieta e impulsiona o Ser amante; ao contrário, é o deleite de ver a vida sob um nôvo aspecto e descobrir nela novos matizes, que só podem ser percebidos quando a contemplamos com a atitude de um amor sereno, pleno e totalmente evoluído. É assim que um par feliz transborda sua felicidade e eleva o nível de sua vida, fecundando com seu amor tudo o que nela se inclui. É assim que o homem e a mulher, unidos, alcançam sua máxima capacidade de esfôrço, de criação e de sacrifício.

Os pessimistas e os cínicos dirão que muitas individualidades valiosas têm visto cortar sua produtividade por matrimônios feitos em condições econômicas desfavoráveis e seguidos de prole cujos cuidados materiais têm absorvido por completo sua atenção e energia. Mas cabe perguntar a tais críticos se o simples fato de criar e educar essa prole – que nunca teria nascido sem se haverem esposado os amantes – não é, em si, a obra de maior vigor que êstes poderiam empreender e realizar. Sòzinhos ou isolados, teriam talvez conseguido mais dinheiro, mais prazeres e frívolas satisfações... mas nunca teriam depurado e quinta-essenciado sua generosidade e sua bondade nem teriam imortalizado seu valor como agora que legaram à Humanidade êsse punhado de filhos, educados com esfôrço e privações, mas com nobreza e idealismo também.

Que não se alegue que muitos pais delinqüem por seus filhos. Qualquer que seja a situação – desesperada, angustiosa e de solução urgente – nunca se justifica o delito em benefício dos filhos, de vez que o melhor patrimônio que os pais lhes podem dar é o exemplo de sua conduta, ainda que prescindindo de tôdas as sanções sociais e legais. O filho de um milionário sem caráter, quando adquire consciência de sua real situação, sentir-se-á menos preparado para a vida, mais humilhado e insatisfeito que o filho de um pobre honrado. O filho de um herói fuzilado caminhará pela vida com melhor equipamento que o de um hierarca traidor. Não há, pois, motivo nem desculpa para justificar desuniões, ou para fugir a obrigações qu ederivam de um modo natural e espontâneo do Amor.
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Trechos da obra "Os quatro gigantes da alma", de Emilio Mira y López, disponível em (MIRA Y LÓPEZ, Emilio. Os quatro gigantes da alma. 8ª ed. Tradução de Cláudio de Araújo Lima. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1966, p. 133-147).
 
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