A fase de iluminação – A chamada
“eleição” do objeto amoroso tem sido exaustivamente estudada pelos psicólogos
modernos, e também pelos poetas e filósofos, que nos têm dado descrições e
interpretações às vêzes mais interessantes que os primeiros. Especialmente os
psicanalistas se têm deixado levar, com freqüência, por considerações
precipitadas, teóricas e excessivamente naturalistas. Por outro lado, os poetas
e filósofos têm-no interpretado, em regra geral, de modo mais ingênuo.
Referimo-nos especialmente a um grande poeta e a um grande filósofo espanhóis:
Pedro Salinas e Joaquim Xirau. O primeiro, no poema “Razão de Amor”, e o
segundo, no livro Amor e Mundo,
legaram-nos páginas de beleza e profundida não superadas na descrição das
primeiras fases do “existir” amoroso.
Devemos
de antemão salientar que o Amor não é algo que nos “chega”, nos “invade” ou
“cai” sôbre nós, e sim um especial modo de ser que sobrevém em nosso íntimo, apoiado e estimulado por certas condições
e fatôres situativos. Muito mais, pois, que o valor provocante ou incitante do objeto amado, deve-se levar em
consideração o valor exuberante e expansivo do “sujeito amante”; mas como a êste falta distância indispensável
para poder analisar-se objetivamente, projeta no exterior o motivo de suas
vivências (exatamente como projeta no exterior as imagens de sua retina) e
atribui estas a determinada pessoa, que assim passa a constituir o suposto foco
desencadeante do processo amoroso.
Que
o objeto em si pouco vale, e a necessidade, as circunstâncias e o sujeito é que
valem muito, mostra-nos diàriamente a experiência das alcoviteiras que entretêm
suas horas de tédio e consolam sua nostalgia, planejando e tecendo as rêdes com
que prenderão, em seu campo de operações os jovens e adultos que ainda não
casaram. Tais espertas, reunidas em conclaves, decidem que “seria lindo” casar
X com Z e M com S. Conseqüentemente, desenvolvem sua estratégia, seus enredos,
reuniões e ocasiões, esperando que “êle” ou “ela” atravessem o quarto de hora
propício para fixar-se,
reciprocamente, entre si. E nove vêzes em dez o conseguem; os noivos assim
prefixados ignoram, muito tempo ou para sempre, o papel essencial que teve seu
amor êsse concílio de menopáusicas que, clandestinamente, monopoliza a
distribuição dos idílios “puros”, nos ambientes enquistados de sua jurisdição
casamenteira.
Mas,
falemos do que importa: como se vive a primeira fase do processo amoroso, ou
seja, o período no qual emerge e se destaca, entre tôdas, a imagem que reflete nosso incipiente Amor? Êste,
qual energia luminosa e radiante, condensa-se na contemplação e adoração de
outro ser, semelhante, correspondente ou aperfeiçoado, e nêle ilumina seus
aspectos positivos. Eis como descreve Xirau êsse ato (Amor e Mundo, págs. 124 e 125):
“Em
presença do Amor a pessoa ou coisa amada sofre ante o olhar do amante uma
verdadeira transfiguração. O olhar amoroso vê nas pessoas e nas coisas
qualidades e valôres que permanecem ocultos a um olhar indiferente ou
rancoroso. Todo ser possui, ao lado das cararcterísticas superficiais que se
oferecerem a quem quer que as olhe, uma infinidade de propriedades, boas e más,
que permanecem em seu íntimo, e ainda muitas outras que, embora ignoradas, é
possível que algum dia venham a se manifestar e mudem totalmente sua fisionomia
interior ou exterior. Há portanto, em todo ser, algo atual e patente e algo
virtual e latente. E entre tôdas as propriedades e valôres que possui uma
pessoa ou uma coisa, superficiais ou profundas, virtuais ou atuais, os há bons
e maus, melhores e piors, detestáveis e excelentes.
“Ora,
o olhar apaixonado percebe no ser amado o conjunto de tôdas as qualidades e
valôres que o integram e destaca, em primeiro lugar, aquêles que entre todos
possuem qualidade ou um valor superior. A partir daí, tende a incrementá-los e
a sublimá-los, a pôr tudo o mais na sua dependência, e a levar, se é
necessário, com esfôrço, sua imperfeição à plenitude.
“O
Amor é, portanto, claridade e luz. Ilumina no ser amado suas recônditas
perfeições e percebe em conjunto o volume de seus valôres atuais e virtuais.”
O
importante, pois, para nós, é destacar que as qualidades de um ser não são as
que determinam nosso enamoramento, e sim que é êsse que as destaca e descobre. Ou,
dizendo-se de maneira mais vulgar: não vemos as perfeições nem as admiramos a priori mas a posteriori de sua iluminação pelo feixe de luz amorosa que brotou
de nosso núcleo pessoal, e pôs “em foco”o ser que julgamos o “incendeu” e que,
na realidade, o “recebe”.
Pretende-se
assim negar tôda influência externa, todo valor de “luz própria” aos objetos de
nosso amor? Evidentemente, não. Pretende-se, entretanto, simplesmente afirmar
que sua luz requer a nossa para ser apreciada com a refulgência conveniente do
Amor. Nada há que não tenha algum clarão próprio, mas nenhum foco luminoso é
capaz de vencer a obscuridade de um cego.
A
vivência da “iluminação” pode dar-se bruscamente – como um relâmpago – e a isso
se chama, em têrmos vulgares, a “centelha” (em castelhano: “el flechazo”), ou então de modo suave e
progressivo, como um lento amanhecer. No primeiro caso, o provável é que o Amor
se nutra principalmente de elementos procedentes de sua raiz orgância genital e
tenha mais apetite fisiológico que processo passional, propriamente dito.
Sente-se, então, como um verdadeiro choque,
seguido de excitação sexual; ainda sem se saber que é e nem como é, basta-nos
sua aparência, que exerce uma espé ie de aspiração ou atração magnética.
Outro
é o caso da iluminação, quando se efetua sob a influência serena de um amor
nutrido por desejos pessoais mais amplos: então, a imagem amada se destaca
lenta, progressiva, porém seguramente, entre as demais, apresentando zonas e
aspectos que provocam a admiração crescente e o gôzo contemplativo, capaz de
chegar a um êxtase no qual todo dinamismo psíquico se consome em puro enlêvo ou
estado sentimental de inefável prazer, provocado pela visão e a penetração ou
fusão imaginativa no halo luminoso dessa imagem. Tanto num como noutro caso,
entretanto, o Amor é, como habitualmente se afirma, cego, mas simplesmente astigmático: destaca e ressalta aquelas
zonas pessoais que maior gôzo contemplativo e admirativo proporcionam ao (ou à)
amante, mas não deixa de perceber também as outras, inclusive se estas são
defeituosas ou repelentes: mas – como diz Xirau – os valôres pessoais negativos
são subordinados e submetidos aos mais elevados, aos que servem de pedestal
para um contraste mais favorável. “O Amor [...] acentua as facêtas positivas
e valiosas das coisas, projeta sua luz sôbre aspectos deficientes ou
defeituosos, absorve-os e ainda os suprime pela única razão de colocá-los a
serviço daquelas.”
Dessa
forma, intervindo a denominada “seleção calitrópica”, até as imperfeições mais
evidentes adquirem um “encanto” especial. O nariz chato parece gracioso; a
bôca, grande e grosseira, torna-se “sensual”; as mãos, gordas e pequenas, são
de “boneca”, etc.c, ou, se se trata de um homem, os modos grosseiros tornam-no
“mais viril”; suas cãs dão-lhe “nobreza e sabedoria”, etc. A quem se convencer
do influxo que a tendência amorosa exerce sôbre a percepção iluminada de seu
objeto, bastará contemplar as fotografias dos pequeninos monstros que às vêzes
são apresentados aos concursos de beleza infantil pelas mães orgulhosas de seus
rebentos.
A fase de ilusionismo e dúvida – Sem
solução de continuidade, o processo amoroso passa da fase anterior a esta
outra, na qual a imaginação tece uma nuvem de fantasias concernentes ao futuro
e à possível comunhão (espiritual e carnal) com o ser amado; fantasias,
entretanto, que se vêem periòdicamente contrastadas e detidas pela dúvida ou
temor de que a realidade esteja demasiado longe de suas promessas. Não é
verdade que o “sonhar não custa nada”; custa, em primeir lugar, afastar-se da
realidade e, em seguida, retornar a ela. Assim, o ser enamorado começar a ser
torturado pelas perspectivas dos prazeres e dos fracassos antecipados. A ilusão
se refere não sòmente à exaltação dos valôres integrantes do ser amado, mas
também à concepção de uma vida venturosa em tôrno dêle e em comum com êle.
Simultâneamente, entretanto, surge o temor de que o sonhador careça de méritos
para transformra em realidade essa ilusória ventura. O Mêdo surge na
consciência amorosa sob a forma dubitativa, logo que esta registra seu estado
de “necessidade” de correspondência ou, pelo menos, de “presença” contemplativa
do ser amado. Eis aqui como Salinas expressa, poèticamente, essa inquietação:
“No, no
puedo crer
que seas
para mí,
si te
acercas, y llegas
y me dices:
‘Te quiero.’
Amar tú? Tú,
belleza
que vives
por encima,
como
estrella o abril,
del gran
sino de amar,
em la gran
altitud,
donde no se
contesta?
Me sonríe a
mí el sol,
o la noche,
o la ola?
Rueda para
mí el mundo
Jugándose
estaciones,
Naranjas,
hojas secas?
No sonríen,
no ruedan
para mí,
para otros.
Bellezas
suficientes,
Reclusas,
nada quieren,
en su
altura, implacables.”
Essa
incerteza do gôzo anelado é já um gérmen do tóxico que o Amor envenena suas
vítimas: o ciúme.
Pode-se
naturalmente objetar que a dúvida não pertence ao Amor em si,e sim quando se pensa no Amor para si, mas o certo é que não há Amor completo que não tenha êsse
duplo movimento de fluxo e refluxo, de efusão e infusão de uma fase de
expansão, cessão, transbordamento e entrega, e uma contrafase de absorção,
introjeção, captação e posse.
O
amante propende tanto a amar como a ser amado, e se do seu amor não duvida, é
natural que duvide do sentimento que terá inspirado, pelo menos no início de
sua história amorosa.
O
ilusionismo, contudo, vence o ceticismo, nos casos normais, e lança o ser
enamorado na fase imediata, ou seja:
A fase da insinuação e exploração –
Neste período, manifesta-se, melhor talvez que em nenhum outro, a natureza
dialética de rivalidade e emulação que rege tôdas as relações humanas. As
experiências dos modernos psicólogos têm evidenciado que tanto o homem como a
mulher conservam o costume infantil de exibir suas graças e valôres ante
qualquer semelhante com quem entrem em relação (profissional, amistosa ou
amorosa, pouco importa), no intento de serem devidamente prestigiados e
poderem, assim, triunfar (ou pelo menos não fracassar) no trato interpessoal
iniciado. Esta conduta não se altera na dinâmica amorosa; ao contrário,
exagera-se durante a fase de recíproca “conquista” de que no momento tratamos.
Simultâneamente, realiza-se a exibição das próprias qualidades, a exploração
das já pressentidas na criatura eleita e a insinuação ou manifestação do afeto
que por ela se sente. Às vêzes, esta manifestação se dá de modo solene e
espetacular, constituindo a clássica declaração
(desejada e temida pelo homem e sempre desejada, ainda que aparentemente
temida, pela mulher). Inclusive, parece impor-se uma certa liturgia e uma
favorável mise en scène para tal
passo, quando se tem em vista uma união permanente e completa: tornam-se
necessárias certas condições de solidão, silêncio, semi-obscuridade, paisagem
ao luar, música... ou, se se trata de um chamado “amor de aventura”, uma prévia
libação e dança... Tratando-se de namorados tímidos, não é raro que susceda o
contrário: a declaração dá-se às pressas, ao despedir-se, em meio do barulho e
sem tempo para um diálogo franco e tranqüilo... ou então, é confiada a uma
meditada epístola, envôlta em romântico palavreado...
Mas o certo é que essa solenidade vai
desaparecendo, sem dúvida porque as novas gerações são mais realistas e estão
mais a par da “técnica” da aproximação. Graças a
isso, passam do flirt ao petting, ou do liking ao loving sem
atravessar êsse período formal da declaração, na qual, simbòlicamente, se “abre
o coração”. Em troca, tanto êles como elas possuem uma rara habilidade em fazer
insinuações mudas (com o olhar, o sorriso, a mão...) ao longo das conversações
mais ou menos triviais. Dessa forma, quando chega o momento da eclosão
passional, cada qual está suficientemente seguro dos sentimentos do outro e
pode reduzir-se a um mínimo sua formulação verbal. A êste respeito é oportuno
relembrar a piada: no século passado, quando uma donzela dizia “não”,
significava “talvez”; se dizia “vou pensar”, significava “sim”, e se dizia logo
“sim”, não era mais donzela.
Mas
o fato de ter a declaração amorosa perdido o encanto e espetacularidade –
exceto para alguns impenitentes, românticos e anacrônicos dom-joões – não
invalida a existência da fase que descrevemos; ao contrário: complica-a e
prolonga-a, de certo modo, pois o que poderia ser uma clara conversação se
transforma em uma série de gestos e condutas de duplo sentido, com as quais se
quer ganhar tudo sem perder nada, deixando caminho aberto para novos ataques ou
fáceis retiradas.
Naturalmente,
sob êsse aspecto, é infinita a variedade dos comportamentos humanos, sendo que
uma mesma pessoa é capaz de conduzer-se de modo completamente diverso em
situações análogas, desta natureza. Apesar disso, porém, há alguns aspectos
constantes e comuns na fase que estamos analisando.
O
primeiro dêles é a exagerada atenção que se presta à “aparência”, não só física
como intelectual e moral, de si próprio e do ser amado.
O
segundo é a curiosidade, difícil de conter, para descobrir nêle novas facêtas e
aspectos que aumentam o grau de conhecimento e de consentimento íntimo a
desfrutar, inclusive, antes da intercomunicação dos pensamentos amorosos.
Com
avidez semelhante à do arqueólogo que explora uma nova gruta pré-histórica, ou
à do astrônomo que descobre um nôvo cometa, o amante quer “ver e saber tudo”
acêrca do ser que é objeto de seu Amor. E isso não sòmente por simples
curiosidade cognoscitiva, mas ainda por gôzo de maior deleite e pelo afã de
compartilhar mais íntimas emoções. Assim, Pedro Salinas escreve:
“Perdóname
por ir así buscándote
tan
torpemente, dentro
de tí.
Perdóname el
dolor, alguna vez.
Es que
quiero sacar
de tí tu
mejor tú.
Esse que no
te viste u que yo veo,
Nadador por
tu fondo, preciosísimo.
Y cogerlo
y tenerlo yo
em alto como tiene
el árbol la
luz última
que le ha
encontrado al sol...”
O
terceiro aspecto característico desta fase é a turvação geral em que vive a
pessoa, quando tem que reagir fora de sua constelação amorosa. Como se costuma
dizer, “está longe”, ou seja, ausente, abstrata, absorta. E isso sucede não por
empobrecimento mental (como afirma Ortega e Gasset), e sim porque tôda sua
energia de pensamento, sentimento e ação se acha concentrada em tôrno dêsse
foco dominante que é a imagem amada. Compreende-se que seja êste o momento em
que a alteração amorosa alcança o máximo, pois é justamente o de maior risco e
emoção para o desenvolvimento do duplo processo (perceptivo-contemplativo e
reacional-possessivo). Mais tarde, quando se haja fixado a fórmula da
correspondência amorosa, sobressairá o aspecto puramente afetivo, de satisfação
ou de tormento, mas não será necessário dedicar o esfôrço intelectual
permanente à resolução das incógnitas que no momento se apresentam. Os mais
leigos não ignoram que, ante qualquer situação nova, os momentos de maior
tensão são aquêles em que ensaiamos diversos modos de adaptar-nos a ela, sem
ter ainda certeza de qual será o êxito alcançado.
A fase de correspondência e a vivência do “eco”
– Até aqui, o indivíduo tinha apenas uma certeza: amava. Mas se o processo
amoroso segue um curso normal, chega o momento em que, como resultado das
insinuações realizadas na fase anterior, pode afirmar e viver outra realidade;
é (ou será) amado! Tratando-se de pessoas que procedem de acôrdo com os moldes ad usum na sociedade latina, pode-se
dizer que, em regral geral, êste momento é vivido anteriormente pela mulher.
Ela, de fato, não deixa transparecer ao homem sua correspondência senão quando
está segura da sinceridade e dos sentimentos dêste. Se de outro modo se
comporta, assumindo o papel ativo, provocante, de “mulher fatal”, inverte a
sucessão habitual dos acontecimentos e corre o risco de viver meramente um amor
físico ou genital, de violento desequilíbrio e escasso valor. É, pois, comum
que a mulher viva o momento do “eco” quando ouve a declaração ou percebe a
insinuação mais evidente. O homem, ao contrário, tem que esperar o “sim”,
formulado ou demonstrado (quer dizer: falado ou insinuado) e, às vêzes, passa
meses e anos à espera dêste instante. Por isso, costuma ser mais espetacular e
violenta a vivência do “eco” ou galã do que na dama.
Que
acontece nesse instante e na fase que dêle pende? Não há alegria nem satisfação
capaz de comparar-se, em magnitude e qualidade, com o que se sente em tais
momentos. Não há palavras nem metáforas capazes de descrever esse euforia, êsse
entrechoque de doce bem-estar e de arrebatamento passional, de prazer e de
enlêvo, de plenitude e de êxtase, que caracteriza a certeza da correspondência,
isto é, a descoberta do “eco” amante. A parte dêsse instante, dois formam um;
há uma interpenetração dos núcleos pessoais e constitui-se uma superpessoa
comum aos dois corpos, que talvez levem anos a unir-se ou talvez não se unam
nunca. Mas o que importa e dá
transcendência a êsse momento é o fato de acompanhar-se de um desdobramento do
âmbito individual, ou seja, de sentir-se um súbito crescimento do mundo
subjetivo ou intrapsíquico. Ao confessarem-se reciprocamente seu amor, dois
amantes se fecundam mentalmente e se entrelaçam de um modo muito mais íntimo e
duradouro do que o farão seus corpos.
Esse
vivência do “eco” e êsse existir em correspondência, também foram
maravilhosamente descritos pelo poeta Pedro Salinas, nos seguintes versos:
“Qué
alegría, vivir
sintiéndose
vivido.
Rendirse
a la gran
certidumbre, oscuramente,
de que otro
ser, fuera de mí muy lejos,
me está
viviendo.
Que cuando
los espejos, los espías
- azogues,
almas cortas -, aseguran
que estoy
aquí, yo, inmóvil
con los ojos
cerrados y los labios
negándome al
amor
de la luz,
de la flor y de los nombres,
la verdad
tranvisible es que camino
sin mis
pasos, con otros,
allá lejos,
y allí
estou
besando flores, luces, hablo.
Que hay otro
ser per el que miro el mundo
porque me
está queriendo con sus ojos.
Que hay otra
voz con la que digo cosas
no
sospechadas por mi gran silencio;
y es que
también me quiere com su voz...”
(“Razón
de Amor”, em Poesía Junta, pág. 167,
Ed. Losada)
Pode-se
afirmar que não seja capaz – enamorado – de sentir êsse constante ressoar do outro e no outro ser, de seus temores e anseios, suas percepções e
propósitos, seus pensamentos e atos, poderá ainda viver outros aspectos da
epopéia amorosa, mas terá perdido o melhor e mais profundamente humano da
mesma. É através dêle que, em plena correspondência (que significa
co-responder, ou seja, responder conjuntamente), o Amor passa à fase terminal
de sua progressiva cristalização, ou seja:
A fase de fusão e simbiose – Eis aqui
agora, para irmanar uma vez mais a Poesia e a Filosofia, como descreve Joaquim
Xirau esta fase de fusão recíproca (Amor
e Mundo, págs. 139 e segs.): “Na união amorosa, sem deixar de ser quem sou,
eu me situo no próximo , converto-me de alguma forma nêle, percebo, sinto e
compartilho quanto êle sente e vive, situo-me em seu íntimo e se revela ante
mim a totalidade de sua pessoa... Pôsto assim em seu lugar, a totalidade do
mundo se me apresenta dentro de seu ponto de vista, e entendo, compreendo e
sinto como minhas a totalidade de suas ações e reações, o sentido completo de
sua sensibilidade e sua conduta. O que parece incompreensível e absurdo,
olhando de fora, mostra-se inteligível e coerente à luz do olhar amoroso...
Todo homem leva em seu seio um mundo. O olhar amoroso penetra nêle e o ilumina.
O que aparecia como um simples exemplar de uma espécie se converte de pronto em
uma pessoa. Nada nela é banal. Um leve sorriso pode revelar mais que a conduta
de uma vida inteira. O íntimo contacto pessoal multiplica em cada um dos sêres
que se amam a infinita riqueza do mundo que para êles é. Já não é só um mundos.
São dois mundos em um. O mundo inteiro se enriquece e adquire uma dimensão de
profundidade. Dois mundo se tornam um, e iluminam por sua recíproca ação os
recantos mais recônditos de sua intimidade pessoal...”
Entretanto,
nessa fusão e na simbiose resultante, não há, embora pudesse parecê-lo, mecha
nem confusão das essências pessoais. Cada um dos elementos do par amante
conserva e realça seus próprios valôres; transfigura-se e adquire seu máximo
esplendor quando vive sob o manto do Gigante Róseo. Porque essa projeção e
transcendência que adquire o seu enamorado, longe de diminuí-lo, robustece-o e
amplia-o, já que essa fusão com o amado é flutuante (in-fusão e e-fusão) e o
faz vibrar em zonas as quais nunca atingiria por seu próprio esfôrço. Se é certa que a “união faz a
força”, aqui é isto é mais certo que nunca, porque a união é a máxima possível
e imaginável.
A
pessoa amante adquire, pois, nesse coexistir simbiótico, nessa vida em comunhão com a pessoa amada,
uma dimensão e um halo inexistentes e insuspeitados. “Sinto-me transfigurado...
eu mesmo não me reconheço... vivo um sonho do qual não quero despertar e, ao
mesmo tempo, vejo a realidade com olhos e podêres que nunca tive...” (carta
íntima de um adolescente que viveu seu primeiro e grande amor). Daqui por
diante, nada será capaz de opor-se à conjunção dos dois amantes. Mais fácil
será romper-se o núcleo atômico do que desfazer-se uma simbiose amorosa, pois
quando chega a produzir-se, oferece o paradoxal efeito de aumentar com os
obstáculos e resistências que surjam em seu caminho.
Bastaria
êsse fato, se outros não houvesse, para demonstrar que a vida amorosa não pode
ser explicada pelos míopes ângulos da física ou da Fisiologia, como também não
pode ser totalmente compreendida sem o seu auxílio. Inclusive a conjuntos dos
três outros gigantes – o Mêdo, a Ira e o Dever, - é impotente para deter ou
desvanecer a história de um amor que alcançou êste nível de desenvolvimento.
Neste caso, os amantes lutam, enquanto viverem, sós, contra tudo e contra
todos, renunciando a quantos bens, gozos e prazeres possam ter, com exceção,
exclusivamente, dessa fé amorosa, dessa comunhão íntima com a outra parte de si
mesmos com o ser que completa a uniade e convive o jugo amoroso (pelo que se
chama “cônjuge”).
Que
o ser individual, por si mesmo, não seria portador de tais energias se não
fôsse porque alberga e põe em jògo, em tais circunstâncias, as de sua espécie,
é um fato que os biólogos postulam e demonstram com rigor experimental:
diversos investigadores intercalaram obstáculos, de intensidade e dano
crescentes, no caminho a ser percorrido por machos e fêmeas de diversas
espécies animais (desde os batráquios aos primatas) e compravaram como os dois
têrmos do vital par marchavam inapelàvelmente para sua fusão, insesíveis à dor
e à fadiga, até que conseguiam juntar-se ou cair exaustos e desfalecidos. Não
há dúvida que essa magna fôrça de recíproca atração tem uma base citoquímica,
imensa e eterna, pois nela reside o mistério da persistência da vida; mas no
momento o que nos interessa é encará-la, sublimada e exaltada, em suas mais
nobres e excelsas manifestações. Porque é nelas é através delas que o Homem se
eleva sôbre o planno instintivo e se transcende na criação de formas originais
e de realidades psíquicas inefáveis.
A
simbiose – vidas unidas – do por amoroso produz em seus dois elementos uma
transformação não só de visão e atitude como de projetos e atos. Já não têm
valor os antigos moldes da vida individual; de tal forma se consumou a
conjunção física e a coabitação (que, na realidade, supõe simplesmente viver
compoartilhando a mesma habitação, quer dizer, sob o mesmo teto), que mesmo que
não cheguem a atingir essa felicidade que supõe a existência do lar, o certo é
que agora “êle” e “ela” estão esposados.
Não é necessário para isso um contrato ou uma bênção: basta o sincero e firme
propósito de compartilhar tudo quanto de bom e mau ofereça o futuro,
ajudando-se mùtuamente e colaborando na criação dos valôres (biológicos ou
naturais e culturais ou espirituais) que cada qual seja capaz de engendrar. É
assim que decorre a fase que poderíamos denominar social do Amor.
A fase de elevação e criação – Nesta
fase, a raiz érgica, antes descrita, expande-se proficuamente. Sua obra
dependerá, como é natural, não só das possibilidades pessoais como da situação
vital em que estas vão conviver. Mas algo há indiscutível: o Amor, que atingiu
êsse momento de seu “devenir”, cresce agora, não já em extensão ou em
profundidade, mas em amadurecimento germinal. Dia a dia, surgem novas provas de
inspiração que dêle procedem: a não é a exaltação (artística ou ética) da
figura amada, nem tampouco a obsessão ou o frenesi de sua pura contemplação ou
posse, o que inquieta e impulsiona o Ser amante; ao contrário, é o deleite de
ver a vida sob um nôvo aspecto e descobrir nela novos matizes, que só podem ser
percebidos quando a contemplamos com a atitude de um amor sereno, pleno e
totalmente evoluído. É assim que um par feliz transborda sua felicidade e eleva
o nível de sua vida, fecundando com seu amor tudo o que nela se inclui. É assim
que o homem e a mulher, unidos, alcançam sua máxima capacidade de esfôrço, de
criação e de sacrifício.
Os
pessimistas e os cínicos dirão que muitas individualidades valiosas têm visto
cortar sua produtividade por matrimônios feitos em condições econômicas desfavoráveis
e seguidos de prole cujos cuidados materiais têm absorvido por completo sua
atenção e energia. Mas cabe perguntar a tais críticos se o simples fato de
criar e educar essa prole – que nunca teria nascido sem se haverem esposado os
amantes – não é, em si, a obra de maior vigor que êstes poderiam empreender e
realizar. Sòzinhos ou isolados, teriam talvez conseguido mais dinheiro, mais
prazeres e frívolas satisfações... mas nunca teriam depurado e
quinta-essenciado sua generosidade e sua bondade nem teriam imortalizado seu
valor como agora que legaram à Humanidade êsse punhado de filhos, educados com
esfôrço e privações, mas com nobreza e idealismo também.
Que
não se alegue que muitos pais delinqüem por seus filhos. Qualquer que seja a
situação – desesperada, angustiosa e de solução urgente – nunca se justifica o
delito em benefício dos filhos, de vez que o melhor patrimônio que os pais lhes
podem dar é o exemplo de sua conduta, ainda que prescindindo de tôdas as
sanções sociais e legais. O filho de um milionário sem caráter, quando adquire
consciência de sua real situação, sentir-se-á menos preparado para a vida, mais
humilhado e insatisfeito que o filho de um pobre honrado. O filho de um herói
fuzilado caminhará pela vida com melhor equipamento que o de um hierarca
traidor. Não há, pois, motivo nem desculpa para justificar desuniões, ou para
fugir a obrigações qu ederivam de um modo natural e espontâneo do Amor.
__________
Trechos da obra "Os quatro gigantes da alma", de Emilio Mira y López, disponível em (MIRA
Y LÓPEZ, Emilio. Os quatro gigantes da
alma. 8ª ed. Tradução de Cláudio de Araújo Lima. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio, 1966, p. 133-147).

