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Arequipa, Peru, 1936 – (*)
Filho de um cônsul peruano na Bolívia, estudou numa academia militar em Lima, completando sua formação em Filosofia e Letras na Universidade de Madri. Colaborou em periódicos e publicou sua primeira coletânea de contos, intitulada Os chefes, em 1958. Sua consagração como escritor foi imediata a partir do primeiro romance, Batismo de fogo. Temas ligados à realidade peruana estão presentes em todas as suas narrativas. Sua obra contribuiu para dar reconhecimento internacional ao romance hispano-americano. Regressando ao Peru em 1974, o escritor conciliou atividades políticas e produção literária com suas incessantes viagens pelo mundo. Sua obra compõe-se, ainda, de diversos livros de crítica literária, peças teatrais e artigos publicados em diversas línguas, valeram-lhe alguns prêmios literários internacionais.
Obras principais: Os chefes, 1958; Batismo de fogo, 1962; A Casa Verde, 1966; Os filhotes, 1967; Conversa na catedral, 1969; Pantaleão e as visitadoras, 1973; Tia Júlia e o escrevinhador, 1977; A guerra do fim do mundo, 1981.
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“Mario Vargas Llosa”, por Fabian E. Debenedetti
“Ninguém que esteja satisfeito é capaz de escrever”, dizia Maria Vargas Llosa ao receber, em 1967, o Prêmio Rómulo Gallegos por sua novela A Casa Verde. Esse romance, premiado na Venezuela e na Espanha, viria a somar-se ao também premiado Batismo de fogo, de 1962, para confirmar a inserção do escritor no que se dera em chamar o boom da literatura lati-americana. Os dois romances refletiriam a tônica das palavras citadas: Batismo de fogo se insurge contra uma sociedade – a peruana – violenta e reprimida, desvendando a trama oculta da vida em uma escola militar onde os jovens sofrem a modelagem sob valores castrenses que mutilarão para sempre sua condição humana. Em A Casa Verde, o contexto de um prostíbulo pemitirá o entrecruzamento de personagens, espaços e épocas: cidades versus selva, moderno versus antigo; a Casa Verde – o prostíbulo – será ponto de encontro de mundos, refúgio e, talvez, libertação.
A sobreposição de histórias, relats simultâneos ou alternados, multiplicidade de focos narrativos se constituirão em marca da escrita de Vargas Llosa. No mesmo ano do discurso a que nos referimos, levava a experimentação ao extremo em Os filhotes, novela que retrata de forma realista a formação da juventude da classe média de Lima. A estrutura da narração, cujos diálogos e descrição se intercalam em um mesmo período, mais do que contar as alternativas da vida de Pichula Cuellar, relata em coro as desventuras de uma juventude sem perspectivas.
Conversa na catedral apresenta quatro narrações que se superpõem de maneira vertiginosa em uma conversa de bar. Nela são devassados trinta anos da história do Peru para concluir – como corolário da vida medíocre dos personagens – que só resta aguardar a morte. Essa proposta confirma um certo niilismo que atravessa a obra de Vargas Llosa. Para ele, o mundo e suas mazelas são simples objetos de descricação a partir dos quais não necessariamente se projeta alguma alternativa, pois essa responsabilidade compete exclusivamente ao leitor. A mesma tessitura se repete em Pantaleão e as visitadoras, entretanto, a dedicação e a meticulosidade do jovem capitão do exército peruano, Pantaleão Pantoja, aplicadas na organização do serviço de visitadoras – prostituras – para saciar a voluptuosidade dos soldados internados na selva, imprimem uma comicidade alucinante construída em torno do absurdo da situação. Comentando-a, o autor dirá que descobriu o humor.
Essa descoberta do humor renderá mais um fruto, já não pelo absurdo, mas sim pela sátira, no romance com referências autobiográficas Tia Júlia e o escrevinhador. Nele, o jovem Mario narra os bastidores do ambiente rádio-teatral, entremeados com a relação amorosa que o liga à tia Julia. No percurso da obra, a personagem Maria refletirá sobre a própria condição de escritor e do escrever. O fato de que transpareço nesse romance a vontade do autor de debruçar-se sobre o ato de escrever não é casual e nos remete ao Vargas Llosa crítico literário e ensaísta lúcido. Dentro seus ensaios críticos, merecem destaque especialmente A orgia perpétua: Flaubert e Madame Bovary (1975) e García Marquez: uma historia de un deicidio (1971).
É seguramente a partir dessa condição de leitor e crítico que, tendo lido Os sertões, de Euclides da Cunha, se propõe transformar a tragédia de Canudos em romance para dá-la a conhecer ao mundo. Baseando-se nas pesquisa de José Calasans e nas suas próprias – in loco -, produzirá uma das mais transcendentes obras de sua extensa bibliografia: A guerra do fim do mundo. Universalizando uma guerra tão brasileira, ele mesmo transpassará pela primeira vez as fronteiras temáticas do seu país natal, completando o ciclo da consagração.
O caráter monumental de A guerra do fim do mundo se repetirá em A festa do bode (2000), que retrata a vida do ditador dominicano Trujillo. Vargas Llosa, entretanto, já faz um bom tempo que está na posição cômoda do escritor cujo nome garante a priori o sucesso de vendas e de crítica. Não que suas mais recentes obras desmereçam sua produção anterior, porém já sabemos o que esperar de um escritor imprescindível que desafia o leitor e que construiu uma obra de perfil singular, à que se mantém fiel, talvez vez um pouco mais satisfeito que no início da carreira.
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Texto disponível em (Guia de leitura: 100 autores que você precisa ler. Organização de Léa Sílvia dos Santos Masina. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 183).

